Tomás António Gonzaga - Autor: Renato César Jardim
Renato César Jardim*
Consumada a fundação da Academia de Letras da Magistratura Mineira, longamente aguardada em copiosa expectativa, a cada um dos acadêmicos reservou-se uma cátedra perpétua, vinculada à memória de seu respectivo patrono.
Foi com espírito de solene reverência e humildade intelectual que assumi a Cadeira Acadêmica que me outorga o privilégio de salvaguardar a memória e o legado de Tomás António Gonzaga. A cadeira número 1, aliás e principalmente, a do patrono da Academia.
Tomás Gonzaga, através de sua escrita, demonstrou que a literatura pode ser um território de resistência e de afeto, em diálogos com a doçura pastoral de Marília e, ao mesmo tempo, com suas epístolas satíricas e inquietações que não se curvaram ao jugo da opressão e que o levaram a um destino trágico.
Nascido em Portugal, na cidade do Porto, em 11 de agosto de 1744, tornou-se órfão de mãe no primeiro ano de vida. Era filho de pai brasileiro, João Bernardo Gonzaga, nascido no Rio de Janeiro, que atuou na Magistratura colonial como ouvidor em Pernambuco e na Bahia.
João Bernardo mudou-se para o Brasil com o filho durante a infância deste. Ainda adolescente, Tomás Gonzaga retornou a Portugal, no ano de 1761, com o objetivo de concluir seus estudos.
Gonzaga foi poeta, ativista político e magistrado, também conhecido pelo pseudônimo de Dirceu. Participou efetivamente da Inconfidência Mineira, movimento pela independência de Minas Gerais, precursor da separação do Brasil de Portugal. O Arcadismo Mineiro teve a influência do iluminismo trazido por escritores brasileiros que estudavam na Europa ou liam livros de fora. No ciclo do ouro, Vila Rica tornou-se o centro intelectual do país, o que deu ensejo à criação da chamada Arcádia Ultramarina.
Tomás Gonzaga é considerado o mais proeminente poeta do Arcadismo luso-brasileiro e tem, até hoje, sua obra máxima, “Marília de Dirceu”, estudada em academias, escolas e universidades. A primeira fase da poesia de Gonzaga foi marcada pelo bucolismo pastoril alimentado pelo amor idealizado por Maria Doroteia (Marília), a quem conheceu quando ela tinha 16 e ele 40 anos, com o romance interrompido quando o poeta foi preso e exilado devido ao seu envolvimento na conjuração.
A escrita muda de rumo após o revés da Inconfidência Mineira, quando os poemas passam a retratar as agruras do poeta na prisão e no exílio. Manuel Bandeira, analisando a obra-prima “Marília de Dirceu”, deixou registrado que “nenhum poema, a não ser os Lusíadas, tem tido tão numerosas edições”. É de se notar a importância da obra de Gonzaga na língua portuguesa, transformando o poeta no maior artífice da nossa literatura colonial, e porque não dizer das letras da última flor do Lácio.
Foi ele, sem nunca ter admitido, embora a crítica o reconheça, o autor das célebres Cartas Chilenas, poemas satíricos que circulavam anonimamente em Vila Rica através de manuscritos assinados pelo pseudônimo de Critilo, e que denunciavam a corrupção e a tirania do então governador Luís da Cunha Meneses.
Tomás António Gonzaga formou-se em Direito em Coimbra, no ano de 1768 e, habilitado para o exercício da Magistratura, atuou como juiz da Comarca de Beja (1779). Em 1782, foi promovido a ouvidor-geral da Comarca de Vila Rica, cargo que representava o ápice da estrutura jurídica local, com amplos poderes judiciais, administrativos e fiscais. Exercia, portanto, a jurisdição em Vila Rica. Sustentava que o verdadeiro juiz devia ponderar as leis humanas com a razão e a ética natural.
Atuou como um dos principais ideólogos e figura central da Inconfidência Mineira. Utilizava seus conhecimentos jurídicos para defender ideais iluministas de liberdade e contestação ao domínio colonial português. Com a delação do movimento, foi preso em maio de 1789. Condenado inicialmente à pena de morte, teve a sanção comutada pela rainha de Portugal, D. Maria I, para o exílio perpétuo.
Durante o encarceramento na Ilha das Cobras, no Rio de Janeiro, ficou preso em cela muito próxima à de Tiradentes. Em 1792, foi deportado para Moçambique, na África, onde se casou com a filha de um rico comerciante, Juliana Mascarenhas, teve dois filhos e voltou a exercer cargos administrativos. Faleceu em 1810, em confortável situação financeira.
*Juiz aposentado, presidente e acadêmico fundador da Academia de Letras da Magistratura (ALM), ocupante da cadeira nº1, cujo patrono é o poeta e magistrado Tomás António Gonzaga, que também apadrinha a ALM. É também presidente do Conselho Editorial da revista MagisCultura.


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