Cadeira nº 7: Godofredo Rangel

“Un enfant nous est né”, assim Hanna Arendt expressou a sua admiração com uma súbita descoberta do sentido filosófico do conceito de natalidade, ao assistir um concerto em Munique. A apresentação do Oratório de Haendell. Enquanto os acordes ainda ressoavam
nos seus ouvidos disse: “Pressenti o que queria dizer esta boa notícia, no sentido metafísico.
A Academia de Letras da Magistratura nos é nascida. Um marco na história da Magistratura Mineira, chega ao mundo como um presente. Mais do que um significação, uma realidade que se descortina para o aprimoramento da cultura jurídica e literária. Mens agitat molen, é a força da vontade, do pensamento e da inteligência que nos move.
JOSÉ GODOFREDO DE MOURA RANGEL.
Foi juiz. Juiz-escritor, juiz-professor, juiz-tradutor. Humanista. Ilustrou a imagem do Tribunal de Justiça de Minas Gerais, e agora entroniza a sua imagem e talento no seleto número das Cadeiras da Academia.
Colhe-se no volume 1, das obras de Godofredo Rangel, reeditada pela Escola Judicial, do Tribunal de Justiça de Minas Gerais, em parceria com a Academia Mineira de Letras e o concurso da Associação dos Magistrados Mineiros, a cronologia da sua vida e obra: “Nasce na cidade de Três Corações (MG), há 21de novembro de 1884, é o quinto dos
oito filhos de João Sílvio de Moura Rangel e Clara Augusta Gorgulho Rangel.
Alfabetizado muito cedo, logo demonstra interesse pelos muito livros disponíveis na biblioteca doméstica – literatura, ciências, geografia, história, religião. Procura decifrar textos literários em inglês e francês, leitura preferencial de seu pai, o que o leva a procurar aprender esses e outros idiomas.
Vivendo a liberdade própria de menino de cidade do interior mineiro, divide seu tempo entre brincadeiras, estudos escolares, experiências científicas. Cria um teatrinho de bonecos para encenar suas histórias. Participa de peças teatrais encenadas por grupos locais. Aos dez anos começa a editar um jornalzinho manuscrito, no qual é redator,
diagramador, ilustrador. Além disso, é ele também o distribuidor. O noticiário pescado nos jornais e em conversas familiares, as charges e comentários críticos fazem parte da pauta do periódico, no qual demonstra verve humorística e atenção para com os acontecimentos sociais e políticos, para além do âmbito local....”
A ida para São Paulo dá-se após a morte do pai, ingressando-se na faculdade de direito, onde participa ativamente de um grupo de jovens com pretensões literárias, onde escreviam para inúmeras revistas e jornais e ainda editavam periódicos de pequena circulação, como o Minarete, onde Rangel publicou muitos contos e crônicas ( in Dicionário
Bibliográfico de Escritores Mineiros – Constância Limas Soares {org.}, ed. Autêntica, B.H, 2010).
O chalezinho onde morava Godofredo Rangel, era também apelidado de Minarete e era onde se reuniam os amigos, principalmente Monteiro Lobato e Ricardo Gonçalves. As correspondências com Monteiro Lobato, que ganharam fama no livro A Barca de Gleyre, se iniciaram depois que Godofredo Rangel voltou para Minas Gerais.
Casou-se ele com Bárbara Pinto de Andrade, em 1906, e tiveram quatro filhos: Duse, Nello, Caio e Túlio.
A estreia nas letras foi com Vida Ociosa, o romance da vida mineira, e ocorreu em 1920. É o retrato do modo de viver mineiro e da vida parada do interior. São contos e crônicas que revelam a melancolia e a ociosidade da vida do campo e das pequenas cidades.
A escrita é o desenho perfeito e claro do olhar do autor:
“Vida que passa sem acontecer nada, mas que dói por dentro”.
O campo sob a mirada do tempo e da ociosidade:
“O tempo aqui não anda. Rasteja. E a gente vai ficando velho sem saber por quê.”
Sobre a terra e o sertanejo, um juízo lapidar:
“o homem da roça é que nem a terra: calado, duro e produzindo pouco. Mas quando produz é pra valer.”
A obra de Godofredo Rangel foi reeditada (ut supra) reunindo as obras Vida Ociosa, A filha, Falange Gloriosa, Os bem-casados, foi lançada em uma edição in box. Na sua apresentação, o Presidente Emérito da Academia Mineira de Letras, Rogério Faria Tavares, nos deixou esta pérola: “O corpo fenece. O legado, no entanto, é perene. Vence a morte e o esquecimento.” E assim, saldando o relançamento da obra de Godofredo Rangel, um presente às novas gerações, vaticinou o lançamento da Academia de Letras da Magistratura.
O legado do homem é perene, vence a morte e o esquecimento. O seu espírito é que a move.
Mens agitat molem.
Tiago Pinto,
Membro fundador da Academia de Letras da Magistratura.
